logo Agência Brasil
Medio ambiente

Trilhas Amazônicas: bioeconomia une desenvolvimento e sustentabilidade

O podcast destaca alternativas econômicas e socioambientais
Baixar
Rafael Cardoso e Akemi Nitahara
04/04/2025 - 07:07
Rio de Janeiro
Trilhas Amazônicas Episódio 3 Bioeconomia
© Arte EBC

Hoje o podcast Trilhas Amazônicas apresenta exemplos de empreendimentos voltados para a bioeconomia e iniciativas sustentáveis e que atuam pela preservação.

O conceito de bioeconomia pode ser definido como um modelo de produção em escala industrial mas com recursos biológicos. Já a sociobioeconomia, valoriza não só o ambiente, mas tudo aquilo que tem à sua volta, criando um ambiente sustentável, com uma tecnologia que pode ser adaptada ou melhorada através de processos e serviços.

Valcleia dos Santos Lima, da Fundação Amazônia Sustentável destaca que a bioeconomia depende de pesquisa:

“Acho que o conceito é importante para a gente até entender como que a gente leva as ferramentas, como que a gente leva as ações para dentro das comunidades, muito mais do que isso é a gente, de fato, fazer com que as ações voltadas para a geração de renda dentro dos territórios, eles possam gerar o impacto que são necessários para melhorar as condições econômicas de quem vive ali nela, né.”

E tem muita gente atuando dentro destas iniciativas econômicas sustentáveis.  A Priscila Almeida é da Amazônia Smart Food, uma empresa de biotecnologia aplicada a alimentos, que desenvolve produtos como proteínas alternativas com espécies da Amazônia. Para ela, a sociobioeconomia é a matriz econômica mais viável para minimizar os impactos da crise climática e promover distribuição de renda nos territórios para quem defende e depende dele.

“Até porque ela é muito concentrada em mão de obra, diferente das tecnologias convencionais, e você consegue fazer uma maior distribuição de renda com os produtos oriundos da sociobioeconomia do que uma startup de inovação, por exemplo”.

Já o paraense Paulo Reis, cofundador das empresas de alimento Manioca e Amazonique, trabalha pela valorização cultural de sua região e pelo desenvolvimento de uma cadeia produtiva sustentável na Amazônia.

“O negócio tem um senso de propósito muito grande, é movido por um interesse genuíno de gerar impacto, gerar preservação, gerar valorização cultural e também de gerar inovação a partir desse ingrediente. E, via de regra, essa é uma relação feita de forma muito direta entre o negócio e comunidades de todos os tipos, povos tradicionais. E essas comunidades viram fornecedoras, e a partir dessa relação de fornecimento de matéria-prima, a gente desenvolve assistência técnica, gera renda, cria uma relação de confiança de longo prazo”.

Elijane Nogueira de Vasconcelos é formada em Direito, mas atualmente se dedica a moda sustentável. Foi a partir de experiências e aprendizados com comunidades tradicionais da floresta que a manauara fundou a Yanciã, uma microempresa voltada para artigos artesanais de moda, aproveitando sua bagagem da área ambiental e ações e estudos nas questões de vulnerabilidade social.

“Comecei a voltar o meu olhar para a minha região, porque já começava a se falar muito nas questões do antropoceno, das mudanças climáticas, o quanto isso já estava sendo, afetando muito aqui a nossa região... Com a Evaporanga, fiz o curso de como não cometer apropriação cultural e essas metodologias novas de trabalho entre iniciativas privadas e comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, que já são historicamente marginalizadas, vulnerabilizadas, e hoje em dia a gente começa a ver essa busca muito pelas próprias empresas, do mercado da moda, pelos conhecimentos, pelos materiais dentro dessas comunidades.”

O cenário é muito ruim, mas é das pequenas ações que brota a esperança.

Paulo Reis atua e busca olhar o lado positivo: "Então eu me sinto tendo essa capacidade de em determinados momentos olhar para o lado positivo, olhar para possibilidades de inovação olhar para quanto o mercado está mais interessado para isso, que a gente não teve nunca na nossa história uma oportunidade tão grande de se comunicar com o Brasil, um interesse tão grande do Brasil e do mundo pela Amazônia, uma abertura tão grande para que a gente ocupe, comece pelo menos a ocupar espaço de protagonismo".

O podcast Trilhas Amazônicas é uma parceria entre a Agência Brasil e a Radioagência Nacional. A série abre o ano da Trigésima Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP30, a ser realizada em Belém, em novembro. Serão sete episódios publicados toda sexta-feira na Radioagência Nacional e nos tocadores de áudio.

Você pode conferir, no menu abaixo, a transcrição do episódio, a tradução em Libras e ouvir o podcast no Spotify, além de checar toda a equipe que fez esse conteúdo chegar até você. 

*A equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024. 

PODCAST Trilhas Amazônicas- Episódio 2 - Bioeconomia 

VINHETA: Trilhas Amazônicas

SOBE SOM 🎶 

EPISÓDIO 3: Bioeconomia

SOBE SOM 🎶 

RAFAEL: Cupuaçu, cumaru, taperebá, tucupi. Açaí, bacuri, buriti, tucumã, pirarucu. Castanha do Pará, fibra de tucum, semente de jupati. Tinta de cúrcuma e urucum. Do interior da floresta, produtos típicos da Amazônia são colhidos por mãos experientes de comunidades locais. Depois, são transportados por barqueiros entre rios sinuosos. Quando chegam a Belém e Manaus, se transformam em sucos, temperos, molhos, geleias, granolas, congelados, hamburguer vegetal, farinhas e farofas. Ou colares, pulseiras, bolsas e roupas. É o processo produtivo e de comercialização que chamamos de bioeconomia. Ou sociobioeconomia.

VALCLÉIA: O conceito de bioeconomia está mais usado, né, para um modelo de produção tipo industrial com recursos biológicos. Só que a gente fala muito da sociobioeconomia, né? Porque ela valoriza não só, ali, o ambiente, tudo aquilo que tem à sua volta, mas também envolve essa questão da gente criar um ambiente sustentável, com uma tecnologia que possa ser adaptada ou melhorada através de processos e serviços, né. Mas aí é importante, quando a gente fala de bioeconomia, a gente tem que falar claramente que ela depende de pesquisa. Acho que o conceito é importante para a gente até entender como que a gente leva as ferramentas, como que a gente leva as ações para dentro das comunidades, muito mais do que isso é a gente, de fato, fazer com que as ações voltadas para a geração de renda dentro dos territórios, eles possam gerar o impacto que são necessários para melhorar as condições econômicas de quem vive ali nela, né.

RAFAEL: Essa é a Valcleia dos Santos Lima, da Fundação Amazônia Sustentável.

VALCLÉIA: Sou superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades, ela é responsável por todos os projetos que são implementados nas comunidades. Entre eles tem o projeto de educação, tem o projeto de saúde, tem o projeto de infraestrutura e tem o projeto de empreendedorismo, que tem toda a parte de economia e atividade de turismo, atividade de manejo do pirarucu, enfim.

RAFAEL: Eu sou Rafael Cardoso, repórter da Agência Brasil. Nesta série de podcast, trazemos exemplos de ações e estudos que contribuem para manter a Amazônia de pé, em meio à superexploração do território e à crise climática. Hoje vamos falar de empreendedorismo e o ciclo de produção que começa dentro da floresta. Com um modelo de negócio que alia a geração de renda para as comunidades, a conservação da biodiversidade e a valorização cultural.

VALCLEIA: Quando fala de produtos, de beneficiar, de agregar valor, a gente está falando de produtos da sociobiodiversidade, como o manejo de pirarucu, que tem já toda uma estratégia desenhada justamente para não gerar o impacto, ou para não gerar a extinção. Que tem todo um trabalho de conservação dos lagos, que tem todo um trabalho de contagem, de extrair uma cota para que aquela espécie não seja impactada. Então, tem todo um trabalho feito nesse sentido e que não dá para escalonar tanto, mas vender muito mais como um produto que vem de um território, que conserva a natureza, que traz benefícios sociais e econômicos para as populações do território, que deveria ter um valor agregado diferenciado. Não é para escalonar, porque senão a gente vai acabar com a espécie.

RAFAEL: Ah, pra quem não conhece, o pirarucu é um peixe gigante típico da região amazônica. Ele pode passar de três metros de comprimento e pesar mais de 200 quilos. Está ameaçado de extinção, mas tem o manejo comunitário autorizado pelo Ibama. Na culinária, é conhecido como “bacalhau da Amazônia”, por ser muito vendido conservado no sal. Com sabor suave e textura firme, é usado em pratos típicos como o pirarucu de casaca e todo tipo de preparo, como moqueca, caldeirada e na brasa.

RAFAEL: Mas vamos fazer um parêntese aqui, para explicar a diferença entre conservação e preservação.

VALCLEIA: Preservar é aquilo que você não pode tocar. E a gente tem áreas e territórios na Amazônia que são áreas de preservação. E conservar, o que é conservar? É você estar ali, usufruir daquilo, mas de uma forma sustentável, onde aquilo que tem possa ser ou aumentado, ou ele possa ainda, além de servir de subsistência para quem está ali, o que sobra daquilo possa ser comercializado e gerar renda para que aquelas pessoas possam adquirir aquilo que elas não consigam produzir. Então por isso a diferença entre preservar e conservar. Preservar é não tocar e conservar é utilizar de forma sustentável e responsável.

SOBE SOM 🎶 

RAFAEL: Portanto, tratamos aqui de práticas de conservação da biodiversidade. Explicação feita, vamos aos exemplos práticos de como o ciclo de produção comercial pode respeitar o tempo, os produtos e as pessoas da floresta.

PRISCILA: E a gente trabalha com comunidades agroextrativistas, onde a gente adquire os insumos, 60% dos nossos insumos são amazônicos, dessas comunidades, e eles representam, em termos de faturamento, 20% do nosso faturamento bruto. E aí a gente começou a fazer o desenvolvimento de novas linhas de produtos, passamos por várias acelerações, incubações subvenções, premiações e chegamos até aqui. Uma outra spin-off, que também é uma startup de impacto socioambiental, é a Ecomodular, que a gente desenvolve um módulo de processamento de matéria-prima inteligente, dotado de machine learning e inteligência computacional para fortalecimento e agregação de valor dentro das comunidades. E a gente está agora buscando ampliar mercado e escalar e tracionar o que a gente tem hoje em linha.

RAFAEL: A Priscila Almeida é da Amazônia Smart Food, uma empresa de biotecnologia aplicada a alimentos, que desenvolve produtos como proteínas alternativas com espécies da Amazônia.

PRISCILA: A gente faz hambúrguer de açaí, hambúrguer de tucumã. Nós temos também carne texturizada de tucumã, substituta da carne de soja. E também temos açaí e tucumã liofilizados.

RAFAEL: Para ela, a sociobioeconomia é a matriz econômica mais viável para minimizar os impactos da crise climática e promover distribuição de renda nos territórios para quem defende e depende dele.

PRISCILA: Até porque ela é muito concentrada em mão de obra, diferente das tecnologias convencionais, e você consegue fazer uma maior distribuição de renda com os produtos oriundos da sociobioeconomia do que uma startup de inovação, por exemplo, você replica facilmente, aumenta a escala, favorece a escala em termos de recurso financeiro e capital, mas a mão de obra e a empregabilidade não chega na mesma velocidade. Então, como uma matriz de desenvolvimento é, provavelmente, se não a principal, uma das mais importantes.

RAFAEL: Priscila é natural de Minas Gerais e decidiu firmar seu negócio em Manaus. Já o paraense Paulo Reis, cofundador das empresas de alimento Manioca e Amazonique, trabalha pela valorização cultural de sua região e pelo desenvolvimento de uma cadeia produtiva sustentável na Amazônia.

PAULO: O negócio tem um senso de propósito muito grande, é movido por um interesse genuíno de gerar impacto, gerar preservação, gerar valorização cultural e também de gerar inovação a partir desse ingrediente. E, via de regra, essa é uma relação feita de forma muito direta entre o negócio e comunidades de todos os tipos, povos tradicionais. E essas comunidades viram fornecedoras, e a partir dessa relação de fornecimento de matéria-prima, a gente desenvolve assistência técnica, gera renda, cria uma relação de confiança de longo prazo, e muitas vezes isso se desenrola para uma relação de desenvolvimento de produto, de vender, de profissionalização. Em alguns casos, como é o caso da Manioca, mas a Amazonique ainda não está nesse grau de maturidade, a gente monitora esse impacto. Então a gente monitora que renda a gente gera, qual é a área preservada em função dessa cadeia, desse produtor, qual que é a assistência técnica que a gente pode gerar, alguns negócios mensuram carbono, pegada de carbono ou sequestro de carbono, outros negócios mensuram o trabalho ligado e associado a povos tradicionais específicos, tipo povos indígenas, quilombolas ou mulheres indígenas.

RAFAEL: A Manioca nasceu em 2014 com foco em produtos alimentícios gerados a partir da mandioca e atinge mercados de 13 estados brasileiros e outros 12 países. A Amazonique, focada na produção de sucos de frutas amazônicas, foi criada em 2022 e, por enquanto, pode ser encontrada nas prateleiras da capital paraense. Tanto Paulo como Priscila fazem parte da Associação dos Negócios de Sociobioeconomia da Amazônia, a Assobio.

PAULO: O que todos nós temos em comum é ter um negócio de produto ou serviço que tem como princípio usar a nossa biodiversidade, a nossa cultura na Amazônia, para gerar negócios, para gerar inovação, mas também usar os nossos negócios para gerar preservação e valorização dessa cultura e dessa biodiversidade.

RAFAEL: A Assobio agrega 75 empresas, com mais de 600 empregos gerados e faturamento acima de R$ 42 milhões. Cerca de 60% dos negócios são alimentícios, mas há outros setores como cosméticos, fármacos, acessórios e moda. Juntas, as empresas compram aproximadamente 100 ingredientes diferentes, que vão além das principais cadeias econômicas da região, como o açaí, o cacau e a borracha. Para o desenvolvimento sociobioeconômico da Amazônia, o foco é multiplica pequenas e médias iniciativas.

PAULO: A gente, na Amazônia, está muito habituado a pensar sempre em projetos grandes, como se aqui fosse um lugar que tem muita terra para pouca gente, isso era uma frase dita pelo Brasil por muitos anos, e como se a gente aqui tivesse sempre que ter uma intervenção de grande escala de fora da região aqui. E eu acho que é muito mais saudável para a região que a gente pense na criação e desenvolvimento de vários pequenos e médios negócios por toda a Amazônia. Alguns deles podem se tornar grandes negócios? Podem se tornar grandes negócios. Mas eu acho que é inviável a gente apostar na Amazônia como um lugar de fornecimento de matérias-primas apenas para grandes negócios. Ou esses negócios não virão para cá porque isso reduz a competitividade deles, ou esses grandes negócios virão para cá de uma forma agressiva que vai exatamente se contrapor, prejudicar, danificar a biodiversidade e as nossas tradições, o nosso modo de vida que a gente tanto quer preservar.

SOBE SOM 🎶 

RAFAEL: Saindo dos alimentos, vamos para a indústria da moda, mas utilizando, às vezes, as mesmas árvores. No caso, a semente do açaí, o coco do babaçu, a fibra do tucumã ou a tintura do urucum.

ELIJANE: Elijane, com J, Nogueira de Vasconcelos. Nasci em Manaus, Amazonas. A graduação em Direito pela Universidade Federal aqui do Estado, do Amazonas, com especialização em Ciências Criminais. Hoje em dia eu coloco a direção executiva da Yanciã, que é uma microempresa.

RAFAEL: Foi a partir de experiências e aprendizados com comunidades tradicionais da floresta que a manauara Elijane fundou a Yanciã, uma microempresa voltada para artigos artesanais de moda, aproveitando sua bagagem da área ambiental e ações e estudos nas questões de vulnerabilidade social.

ELIJANE: Comecei a voltar o meu olhar para a minha região, porque já começava a se falar muito nas questões do antropoceno, das mudanças climáticas, o quanto isso já estava afetando muito aqui a nossa região. E aí, quando eu retorno para cá, em 2021, teve uma grande cheia aqui nessa época. Eu me conectei com a representante na época do Fashion Revolution, que é um movimento global por uma moda com mais responsabilidade, né? E daí eu fui desenvolver alguns estudos dentro de cursos extracurriculares, como o Artesanato na Moda, através da instituição Fashion for Future, que são brasileiras que estudam a moda italiana, para desenvolver a moda brasileira nesse sentido de conteúdo e com o que a gente tem aqui no nosso país. Já com esse foco também da questão de desenvolvimento socioeconômico, né? Também fiz o curso de moda decolonial, pra gente desenvolver uma cultura de moda a partir dos nossos territórios, né? Isso com a Evaporanga, fiz o curso de como não cometer apropriação cultural e essas metodologias novas de trabalho entre iniciativas privadas e comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, que já são historicamente marginalizadas, vulnerabilizadas e hoje em dia a gente começa a ver essa busca muito pelas próprias empresas, do mercado da moda, pelos conhecimentos, pelos materiais dentro dessas comunidades.

RAFAEL: A presença amazônica e a visão decolonial começam pelo nome da marca: Yanciã.

ELIJANE: De Yasi, que é com Y, a deusa-lua da Vitória Régia, da mitologia das Amazonas, das Ykamiabas, que é aquela lenda e a história das mulheres que lutavam aqui por esse território na época da invasão, dos colonizadores. E uma mistura com a palavra anciã, para honrar esses conhecimentos tradicionais, essas mulheres que detêm esses saberes, que por muito tempo foram violentadas, marginalizadas, invisibilizadas pelo próprio mercado do artesanato, que muitas vezes nem dava referência desses trabalhos, desses conhecimentos tradicionais.

RAFAEL: Nós contamos essa história das Ykamiaba no teaser dessa série. A lenda das mulheres guerreiras que foi associada à lenda europeia das Amazonas e acabou dando nome ao rio, à floresta e ao estado. Voltando à Yanciã, o modelo de negócio é baseado na curadoria das peças e na valorização do trabalho das artesãs.

ELIJANE: Em 2021 eu fiz o registro do nome comecei com um showroom dentro da minha casa e fazendo feiras. O modelo de negócio é a curadoria, eu fui fazendo uma pesquisa autônoma para entender dentro do meu estado do Amazonas, eu tenho esse limite territorial. Para entender os materiais que a gente possui, os biomateriais aqui dentro do nosso território, e os conhecimentos tradicionais, porque parte desses materiais vem de saberes ancestrais, de comunidades indígenas que já utilizavam até para a própria subsistência, seja para fazer rede de pesca, até vender mesmo os produtos e tudo mais. E daí eu vinha fazendo essa curadoria para entender um pouco dos materiais e de onde vinham, quem eram as comunidades, entender os arranjos produtivos, a forma de coleta, de beneficiamento. Tudo que a gente compra, de onde vem, do que é feito, quem é que faz, se os pagamentos por esses produtos são justos, dado o trabalho, muitas vezes, que nem é regulamentado, são, às vezes, cadeias produtivas muito invisibilizadas e subvalorizadas. E entender também o que é tradicional por essas questões até do direito mesmo de propriedade intelectual, para não ocorrer apropriação. E hoje a gente desenvolve coleções a partir desse trabalho de curadoria, até para eu entender como são os processos, de onde vem, para a partir daí desenvolver as nossas coleções, os nossos próprios produtos com o desenho da Yanciã.

RAFAEL: Ela explica que não se trata de revenda de materiais amazônicos. O trabalho envolve pesquisa e troca de saberes com artesãs.

ELIJANE: As peças são feitas por artesãs que estão aqui em Manaus e em outras comunidades e associações, das quais até já acontece a retirada da matéria-prima. Tem associações que já fazem esse trabalho até o produto final, toda a coleta, beneficiamento e tramo, então eu já pego ali o produto pronto, a partir dessas associações. Não faço apenas uma revenda, é tudo isso que envolve a pesquisa. Com artesãs aqui, muitas vezes os insumos vêm do interior, são as fibras de tucum, piaçaba, os pigmentos, as sementes de açaí, tucumã. E aí algumas artesãs trabalham aqui, eu fui fazendo esse mapeamento e incorporando no projeto da Yanciã. O mais forte até aqui foi o processo de curadoria. São peças que são peças únicas, eu faço essa seleção. O meu trabalho iniciou como uma curadoria, de artesanatos mais sofisticados, digamos assim. E agora eu já passo ao passo de desenvolvimento do produto, da coleção, porque eu estou com o diretor criativo na equipe, e pensando também na profundidade dos arranjos produtivos, para a gente poder garantir uma pigmentação que não manche, um produto que tenha mais tempo, de durabilidade, por serem produtos vegetais, em grande parte.

RAFAEL: E a crise climática? Como impacta os negócios da sociobioeconomia?

ELIJANE: Com certeza, né? Seja pela logística, né? De chegar aqui o material, a seca prejudica, aumenta muito o valor de tudo, né? Tudo está muito mais caro por conta da crise climática. E também o próprio cultivo nas comunidades, tipo a falta de recursos, essa desregularidade do clima que antes tinha uma sazonalidade do produto. Isso impacta diretamente o cultivo e a produção dessas sementes, dessas fibras. E também uma falta dessas políticas públicas de manejo, de incentivos, porque muitas vezes, por o artesanato ter tido essa visão de subvalorização, dentro de todo o mercado, do próprio mercado de moda. As sementes ficam como se fosse algo que não tivesse valor, não se compara o valor de uma semente com o ouro, mas quando, na verdade, se a gente for olhar isso com mais profundidade e com a demanda que a gente tem, a verdadeira riqueza está nisso, nessa biodiversidade, nesses biomateriais. O artesanato tem crescido, a indústria da moda tem se voltado para os nossos materiais aqui e as mulheres que fazem essa retirada, não só mulheres, todos que vivem ali nas comunidades, eles têm que ir cada vez mais fundo na floresta, sabe? Não tem essa formação, esse letramento do próprio valor do trabalho. Então, acabam tirando e vão cada vez mais adentro das florestas, não existe esse plano de manejo responsável desses materiais.

PASSAGEM

PRISCILA: Não vejo possibilidade de melhora para os próximos anos, pelo menos por enquanto. E o impacto gerado da seca, o Tucumã, que é uma cadeia que a gente trabalha foi muito prejudicada esse ano. Essa seca está impactando e gerando, em alguns casos, a esterilização das sementes. A gente teve dificuldade de conseguir sementes férteis para poder micropropagar. Então eu vejo que já está impactando e a tendência é ser cada vez mais forte.

PASSAGEM

PAULO: Primeiro tem uma maneira mais objetiva, que é preço. A seca prejudica as safras, então existe uma produtividade menor e a gente, portanto, paga mais caro pelas matérias-primas. Segundo, seca na Amazônia significa logística, porque a nossa principal logística na Amazônia inteira é pelos rios. Então, a gente sente também com o aumento do preço na logística, ou em alguns casos, com a impossibilidade de trabalhar com alguns produtos em função da logística. Agora, a gente teve recentemente um produto cujo preço do frete tinha aumentado 52%. Em função das secas, o produto deveria vir de Santarém para Belém de barco e não pôr de vir de barco pelo que vir de caminhão. E eu acho que é uma terceira forma, o clima afeta muito a produção, seja extrativa, seja agricultura. Tem uma questão também de motivação e tal. É muito duro a gente na região, com pequenas iniciativas, lidando com uma série de desafios, fazendo a nossa parte, lidar do nosso lado com o cenário em que está tudo pegando fogo. Então a gente teve nesse ano agora o maior volume de queimadas de muitos anos. Tivemos juntos agora em Santarém, a gente estava literalmente respirando fumaça, a cidade estava cheirando a queimado, parecia que a gente estava do lado de uma mata pegando fogo. Então eu acho que isso mexe muito com a autoestima, com a motivação da população amazônica, porque fica parecendo, como sempre apareceu na nossa história de Brasil, que a gente está aqui pegando fogo e ninguém está ligando muito para isso.

RAFAEL: O cenário é muito ruim, mas é das pequenas ações que brota a esperança.

PAULO: Eu me sinto tendo essa capacidade de em determinados momentos olhar para o lado positivo, olhar para possibilidades de inovação olhar para quanto o mercado está mais interessado para isso, que a gente não teve nunca na nossa história uma oportunidade tão grande de se comunicar com o Brasil, um interesse tão grande do Brasil e do mundo pela Amazônia uma abertura tão grande para que a gente ocupe, comece pelo menos a ocupar espaço de protagonismo. Então, acho que tem muitas coisas positivas. A gente nunca teve na Amazônia uma disponibilidade tão grande de recursos financeiros para investir em conservação, restauração, para investir em negócios de bioeconomia. A gente nunca teve tão na crista da onda como estamos hoje. Então, eu acho que, para a gente, a gente tem vivido, nesses últimos anos, diria que desde 2019, uma crescente de oportunidades para quem trabalha com Amazônia, para quem quer discutir a Amazônia e tal. O problema é que essas oportunidades de fato vêm junto com o aumento do problema que a gente está lidando.

SOBE SOM 🎶

RAFAEL: O que esperar do futuro? Depende de todos nós saber esperançar. Lembrando Paulo Freire, patrono da educação brasileira: “esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir!”

SOBE SOM 🎶 

CRÉDITOS

O podcast Trilhas Amazônicas é uma parceria entre a Agência Brasil e a Radioagência Nacional, dois serviços públicos de mídia da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC.

A série abre o ano da Trigésima Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP30, que vai ser realizada em Belém, em novembro.

A equipe viajou a convite da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024.

A reportagem, entrevistas e apresentação foram minhas, Rafael Cardoso.

Adaptação, roteiro, edição e montagem de Akemi Nitahara.

Coordenação de processos e supervisão de Beatriz Arcoverde, que também faz a implementação web junto com Lincoln Araújo.

Mara Régia gravou a vinheta e os títulos dos episódios.

A trilha sonora original foi composta para nós por Ricardo Vilas.

Também utilizamos a música Japurá River, de Uakti e Philip Glass.

Identidade visual da equipe de arte da EBC.

RAFAEL: No próximo episódio, vamos explicar como a tecnologia ajuda a conservar a biodiversidade na Amazônia. Até lá!

SOBE SOM 🎶 

 

Em breve

Reportagem, entrevistas e apresentação

Rafael Cardoso
Edição, roteiro, adaptação e montagem Akemi Nitahara 
Coordenação de processos e supervisão

Beatriz Arcoverde

Identidade visual e design:

Caroline Ramos

Interpretação em Libras: Equipe EBC
Implementação na Web:

Lincoln Araújo e Beatriz Arcoverde

Trilha sonora original Ricardo Vilas
Locução da vinheta e títulos dos episódios Mara Régia
Música Japurá River  Uakti e Philip Glass
Youtube Eduardo Goes Neves no TEDx Amazônia