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Internacional

Primeiro-ministro da Groenlândia denuncia "interferência estrangeira"

Delegação norte-americana chegou ao território cobiçado por Trump
Cristina Sambado - Repórter da RTP
Publicado em 24/03/2025 - 10:57
NUUK
Geleira na costa oeste perto de Nuuk, Groenlândia
04/09/2021
REUTERS/Hannibal Hanschke
© REUTERS/Hannibal Hanschke/Proibida reprodução
RTP - Rádio e Televisão de Portugal

O primeiro-ministro demissionário da Gronelândia, Mute Egede, denunciou nesta segunda-feira (24) "interferência estrangeira" antes da visita de uma delegação norte-americana ao território autônomo dinamarquês cobiçado por Donald Trump.

“É preciso destacar que a nossa integridade e democracia devem ser respeitadas sem qualquer interferência externa”, declarou na rede social Facebook, especificando que não haverá “nenhum encontro” com essa delegação que, segundo Egede, inclui o conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos (EUA), Mike Waltz, e a mulher do vice-presidente americano JD Vance, Usha Vance.

O chefe de governo demissionário frisou ainda que a viagem de Usha Vance e Mike Waltz “não pode ser vista como uma simples visita privada”. A Casa Branca anunciou nesse domingo (23) que a delegação visitará uma base militar dos EUA e assistirá a uma corrida de trenós puxados por cães. Será liderada por Usha Vance, esposa do vice-presidente, e incluirá o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Mike Waltz, e o secretário de Energia, Chris Wright. "Devemos permanecer unidos e nos manifestar contra um tratamento inaceitável”.

“O único objetivo é nos mostrar uma demonstração de poder, e o sinal não deve ser mal interpretado. Mike Waltz é o conselheiro confidencial e mais próximo de Trump, e a sua presença na Groenlândia, por si só, fará certamente com que os americanos acreditem na missão de Trump, e a pressão aumentará após a visita”.

Em declarações ao jornal local Sermitsiaq, Egede disse que, “até há pouco tempo, podíamos confiar nos americanos, que eram nossos aliados e amigos, e com quem gostávamos de trabalhar de perto. Mas esse tempo acabou”.

“Os americanos foram claramente informados de que as reuniões só podem ocorrer após a tomada de posse de um novo governo”, esclareceu Mute Egede após as recentes eleições legislativas no território autônomo.

Desde a derrota da formação de esquerda, o Partido Verde, nas eleições legislativas, Mute Egede é o líder interino da Groenlândia até a formação de nova representação. O governo da Groenlândia, Naalakkersuisut, encontra-se atualmente em fase de gestão após as eleições parlamentares de 11 de março, vencidas pelos Democratas, um partido pró-empresarial que favorece uma abordagem lenta à independência da Dinamarca.

O provável sucessor de Mute Egede, líder do partido de centro-direita, Jens-Frederik Nielsen, descreveu recentemente como “inapropriados” os comentários de Donald Trump sobre a futura anexação da Groenlândia.

Jens-Frederik Nielsen apelou à unidade política e afirmou que a visita da delegação americana durante as conversações da coligação, e com as eleições municipais previstas para a próxima semana, “mostra mais uma vez a falta de respeito pelo povo do território.

Embora todos os principais partidos da Groenlândia sejam favoráveis à independência do território a mais ou menos longo prazo, nenhum deles apoia a ideia de uma ligação aos Estados Unidos. Em meados de março, Donald Trump afirmou que a anexação pelos Estados Unidos acabaria por “acontecer” e que promoveria a “segurança internacional”.

Também a Dinamarca manifestou oposição à ideia. “isso é algo que levamos a sério”, disse a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen. 

A Dinamarca pretende cooperar com os EUA, mas essa cooperação deve se basear nas “regras fundamentais da soberania”.

O diálogo com os EUA sobre a Groenlândia será feito em estreita coordenação com o governo dinamarquês e o futuro governo de Nuuk.

"Oportunidade para construir parcerias"

Brian Hughes, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, disse que a visita da delegação dos EUA “representa oportunidade para construir parcerias que respeitem a autodeterminação da Groenlândia e promovam a cooperação econômica”.

“Esta é uma visita para aprender sobre o território, sua cultura, história e povo e para assistir a uma corrida de trenós puxados por cães que os Estados Unidos se orgulham de patrocinar, pura e simplesmente”, afirmou Hughes. Waltz e Wright planejam visitar Pituffik, a base militar espacial norte-americana na Groenlândia. A Casa Branca frisou que receberiam no local instruções de membros do serviço dos EUA.

Depois, se juntarão a Usha Vance para visitar locais históricos, conhecer o património do território e assistir à corrida nacional de trenós puxados por cães, informou a Casa Branca. A delegação regressará aos EUA em 29 de março.

Usha afirmou, em vídeo publicado pelo consulado dos EUA na Groenlândia, que sua visita tinha como objetivo “celebrar a longa história de respeito mútuo e cooperação entre as duas nações”.

Dois aviões de transporte militar Hercules dos EUA chegaram à capital da Groenlândia, Nuuk, no final de domingo, transportando pessoal de segurança e veículos à prova de bala.

Cerca de 60 policiais da Dinamarca também chegaram a Nuuk no domingo, acrescentou a emissora estatal KNR.

A localização estratégica da Groenlândia e os seus ricos recursos em petróleo, gás e minerais poderão beneficiar os EUA. A Groenlândia situa-se ao longo da rota mais curta entre a Europa e a América do Norte, vital para o sistema de alerta de mísseis balísticos norte-americanos.

Trump, que lançou pela primeira vez a ideia de comprar a Groenlândia em 2019, renovou apelos para que os EUA tomem conta das ilhas desde o seu regresso à Casa Branca em janeiro, e não excluiu o uso da força para atingir esse objetivo.

O presidente norte-americano fez da anexação da Groenlândia pelos EUA um ponto de discussão, depois de o filho mais velho, Donald Trump Jr., ter feito uma visita privada à vasta ilha, rica em minerais, em janeiro. Desde que tomou ocupou o cargo pela segunda vez, afirmou que o país passará a fazer parte dos EUA “de uma forma ou de outra”.

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