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Cultura

Unidos do Viradouro conta a luta, sabedoria e fé do líder Malunguinho

A campeã de 2024 aposta na história do líder do quilombo Catucá
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Caio Azevedo - Estagiário da Rádio Nacional*
25/02/2025 - 18:30
Rio de Janeiro
Brasília-DF- 21/02/2025 ARTE / SÉRIE CARNAVAL. série sobre escolas de samba. Crédito/ Editoria de arte.
© Crédito/ Editoria de arte.

No quilombo do Catucá, Zona da Mata de Pernambuco, resistiam os negros, em um Brasil ainda escravocrata. É neste cenário, nos idos de 1817, 1818, com regiões rebeladas contra o colonialismo e marcadas por fugas, que ganham força os quilombos – como o Catucá – sob o comando de negros determinados a lutar por liberdade.

Entre eles, João Batista, apelidado de Malunguinho, numa referência a malungo, como se chamavam uns aos outros, nome africano, equivalente a companheiro.

É justamente João Batista, principal líder dessa resistência quilombola na região, a figura central da história que a Unidos do Viradouro vai contar em 2025 na Marquês de Sapucaí.

Campeã do carnaval deste ano, a vermelha e branca de Niterói, Região Metropolitana do Rio, escolheu a saga do líder quilombola, anti-escravagista e libertário para defender sua posição, com o enredo “Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos”.

Destemido, defendeu o quilombo contra os ataques dos senhores de engenho, insatisfeitos com a resistência preta e indígena que se formava na floresta. Último líder do Catucá, ele morreu durante combate, defendendo seu povo, em 1835.

O carnavalesco Tarcísio Zanon, que já ganhou dois dos três títulos da Viradouro, incluindo o de 2024, conta como a escola pretende exaltar Malunguinho:

"É um enredo muito interessante porque a gente vai contar um personagem que sobreviveu dentro de um culto e que hoje entra para a historiografia nacional, e que a gente pretende colocá-lo num lugar de importância como ele merece: primeiro mostrando a história dele e demonstrando o quanto ele foi importante para a libertação do seu povo. Essa figura desse grande anti-herói, que foi João Batista, o Malunguinho, hoje mensageiro de três mundos na Unidos do Viradouro."

Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Detalhe de carro alegórico, no barracão da Escola de Samba Unidos do Viradouro, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Detalhe de carro alegórico, no barracão da Escola de Samba Unidos do Viradouro, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil - Tânia Rêgo/Agência Brasil

Desbravador das florestas, para combater os invasores, João Batista aprendeu muito com os povos originários sobre os segredos das ervas. Hoje, Malunguinho é venerado no Catimbó-Jurema, culto afro-indígena à árvore sagrada de nome Jurema, que detém poderes curativos e espirituais – um dos três mundos do enredo.

Ele é cultuado como caboclo, entidade das matas, orientador espiritual e exu-trunqueiro, que abre os caminhos da floresta.

Segundo Tarcísio Zanon, os setores do enredo vão apresentar em detalhes a importância de João Batista não só na resistência aos colonizadores, mas no mundo espiritual.

"O nosso enredo é dividido em quatro setores. Num primeiro momento, a gente vai contar a história do João Batista, que é esse último dos malungos, esse líder quilombola, e logo após a gente entra nessas três falanges espirituais, em que o Malunguinho aprendeu durante a vida para que ele pudesse dar consulta hoje no Catimbó-Jurema."

Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Tarcísio Zanon, carnavalesco e Alessandra Reis, diretora de Ateliê da Unidos do Viradouro, no barracão da escola, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/02/2025 - Tarcísio Zanon, carnavalesco e Alessandra Reis, diretora de Ateliê da Unidos do Viradouro, no barracão da escola, na Cidade do Samba, zona portuária. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil - Tânia Rêgo/Agência Brasil

A Unidos do Viradouro será a terceira escola a se apresentar na Marquês de Sapucaí, no domingo, 3 de março, primeiro dos três dias de desfiles do Grupo Especial.

* Com supervisão de Tâmara Freire

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